Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha formam o Crajubar — um território onde cultura e comunicação se entrelaçam há décadas. Esta reportagem investiga o mercado jornalístico na região, revisitando a trajetória da imprensa local e analisando como os profissionais têm se reinventado diante das transformações do fazer jornalístico. A partir de dados, entrevistas e relatos, o trabalho traça um panorama dos desafios, desigualdades e possibilidades que marcam a profissão, refletindo ainda sobre o papel da UFCA na formação e inserção dos novos jornalistas no cenário regional.

O JORNALISMO DO CRAJUBAR
E OS NOVOS CAMINHOS DO MERCADO
Bárbara Letícia
Pedro Miranda
Samira Salyorania
Suyanne Maia
PANORAMA DA COMUNICAÇÃO NO CRAJUBAR
O jornalismo no Crajubar tem raízes profundas. Muito antes das redes sociais e da forma espontânea de produção de informações a região já abraçava a comunicação, desde jornais impressos que circulavam pelas ruas, as rádios que deram voz à cultura e personalidades dessas cidades, e as TVs que ampliaram o alcance das histórias locais. Cada fase reflete uma época e os caminhos que o jornalismo percorreu até se adaptar às transformações tecnológicas e sociais.
Entre jornais impressos, transmissões e portais de notícia, o Crajubar construiu uma identidade na comunicação, de forma própria e singular, que é marcada pela mistura de tradição e reinvenção. E a seguir, você confere uma linha do tempo que relembra os principais marcos dessa trajetória, que vão dos primeiros jornais até os meios digitais que continuam mantendo viva a arte de informar na região.

LINHA DO TEMPO
jornais impressos
1855
O Araripe
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1904
Correio do Cariry
1911
O Rebate
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1997
Jornal do Cariri

rádios
como um meio resiliente, moldado por personagens apaixonados e comprometidos com a realidade local.
No rastro da pioneira Rádio Araripe, surgiram outras emissoras que ampliaram o alcance e a influência desse meio na região. A Rádio Iracema do Cariri, fundada também em 1951, em Juazeiro do Norte, tornou-se a primeira da cidade e a segunda do interior cearense, fortalecendo o vínculo entre comunicação e vida comunitária. Ainda nos anos 1950, a Rádio Educadora do Cariri, criada por Dom Vicente de Paulo, inseriu o rádio em um projeto de educação popular e evangelização da Diocese — papel fundamental na articulação de ações sociais e campanhas de alfabetização.
Já nas décadas de 1960 e 1970, emissoras como a Rádio Progresso, em Juazeiro, e a Rádio Salamanca (depois Cetama), em Barbalha, revelaram um modelo de radiodifusão marcado por interesses políticos e econômicos, com forte presença de grupos familiares tradicionais e empresários do setor canavieiro. Esses veículos foram centrais na mediação entre os poderes locais e a população, ora como instrumentos de difusão cultural, ora como arenas de disputa simbólica. A voz do rádio, então, era também a voz das estruturas sociais do Cariri.
Com o passar das décadas, o rádio caririense demonstrou uma notável capacidade de reinvenção. A partir dos anos 2000, o processo de migração das rádios AM para FM não apenas modernizou a infraestrutura técnica, mas também diversificou formatos e ampliou audiências. Emissoras tradicionais, como a antiga Verde Vale AM 570, transformaram-se e deram origem a rádios com perfis segmentados, como a JM FM, voltada ao público adulto.
Novos nomes também surgiram — a exemplo da Rádio Tempo FM 101.5, da Somzoom Cariri 106.5 FM e da CBN Cariri, que reforça o papel do rádio como espaço de jornalismo em tempo real e análise crítica. A Rádio Iracema do Cariri FM 91.9 mantém um público fiel ao forró, ao piseiro e ao sertanejo, enquanto a centenária Rádio 100 FM, com raízes em 1951, preserva sua relevância na paisagem midiática, agora em 100.5 MHz.
Ao atravessar transformações tecnológicas e mudanças no perfil das audiências, o rádio no Cariri mantém-se como um território de memória, resistência e pertencimento — onde o som continua sendo linguagem de encontro entre tradição e modernidade.
Na história da comunicação no Cariri cearense, o rádio ocupa um papel fundamental, tanto como ferramenta de informação e entretenimento quanto como espaço de formação identitária e comunitária. Desde a chegada da Rádio Araripe do Crato, em 1951, sob a chancela dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, até as recentes transformações digitais, o rádio atravessa décadas

Rádio Araripe - Crato. Foto restaurada por IA


LINHA DO TEMPO
emissoras de TV
TV Padre Cícero, fundada em 1999, comunitária.


TV Verde Vale, fundada em 2006, educativa, pela Fundação XV de Agosto, em parceria com a TV Cultura.
TV Verdes Mares Cariri, fundada em 2009, comercial, por Edson Queiroz/Sistema Verdes Mares

O rádio no Cariri e a trajetória dos seus comunicadores
Em meio às transformações tecnológicas e aos novos formatos digitais, o rádio permanece como espaço de pertencimento e voz no Cariri, impulsionado pela paixão de comunicadores como Toni Souza e Célia Rodrigues
O rádio caririense carrega, em suas ondas, o som da memória e o eco da resistência. Desde os tempos em que a transmissão era feita com fitas de rolo e discos censurados, até a era das transmissões online e dos aplicativos de streaming, ele se manteve como um território de invenção, afeto e persistência.
E, dentro dessa longa travessia, nomes como Célia Rodrigues e Toni Souza simbolizam a alma viva dessa história — dois comunicadores que traduzem, em gerações diferentes, o mesmo amor pelo microfone e pela palavra.
A trajetória de Célia Rodrigues começou cedo, em 1971, quando, aos 19 anos, fez um teste de locução na Rádio Iracema de Juazeiro do Norte. Entre textos publicitários e convites de missa, ela foi aprovada e logo partiu para Fortaleza, onde se profissionalizou em radialismo.
Eram tempos difíceis. “Ainda vivíamos resquícios da ditadura militar, com aquele controle midiático terrível”, recorda. As rádios recebiam caixas cheias de discos com algumas faixas riscadas — de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Elis Regina — pela censura, e, portanto, o silêncio imposto pelos militares tentava calar também as vozes do Cariri.

Antiga rádio Iracema

Célia Rodrigues




Mesmo diante da repressão e das limitações técnicas da época, o rádio era uma espécie de tecnologia artesanal, feita de improviso, sensibilidade e criatividade. “Era extremamente prazeroso fazer rádio, pois era tempo real, estimulava a escuta e alterava o imaginário do ouvinte”, conta Célia.
Com o passar dos anos, ela se tornou uma das figuras mais reconhecidas da comunicação caririense. Apresentou o programa “Sexo Verbal”, na Vale FM, que durante nove anos discutiu sexualidade e comportamento com leveza e coragem — rompendo tabus em plena década de 1990. Hoje, aos 54 anos de carreira, reflete sobre o cenário atual com a mesma lucidez de quem viveu o rádio em todas as suas fases: “Não querem dar oportunidade a quem está começando. É preciso ter estágio, mas também espaço real para se profissionalizar”.
Toni viu o rádio atravessar revoluções. Viveu o tempo das fitas, dos LPs, dos CDs
e chegou às playlists digitais. Acompanhou o rádio que antes era local tornar-se global.
“Hoje, um ouvinte pode acompanhar a Rádio Progresso de qualquer lugar do mundo.
O que antes era um alcance regional, hoje é global, graças aos aplicativos e transmissões online”, explica.
Mas ele também reconhece os riscos dessa era de excesso informativo. “As redes viraram uma terra de ninguém, onde qualquer um comenta, agride ou distorce. O rádio ainda é esse espaço de vínculo e confiança com o ouvinte”, observa.
Para Toni, o segredo da sobrevivência do rádio está justamente nesse laço afetivo. “Quem liga o rádio quer ouvir aquele programa, aquele locutor. É um vínculo direto.” Essa intimidade, segundo ele, é o que faz o rádio permanecer essencial, mesmo diante das telas e algoritmos.
Ambos — Célia e Toni — acreditam que o futuro da comunicação caririense também está nas mãos da nova geração de jornalistas, formados na Universidade Federal do Cariri (UFCA), que têm a missão de unir técnica, ética e sensibilidade local. “O jornalista do interior precisa entender o seu lugar”, afirma Toni. “A nossa região tem muita coisa boa para mostrar, mas é preciso conhecer essa realidade e não querer trabalhar como se estivesse em São Paulo ou Fortaleza.”
Entre conselhos e lembranças, o recado dos dois comunicadores se entrelaça: o rádio continua sendo mais que um meio de comunicação. É resistência, é escola e é abrigo. Da juventude ousada de Célia à persistência curiosa de Toni, o que se mantém é o mesmo som — o da paixão pelo ofício e o desejo de manter viva a voz do Cariri.


Rádio Cetama
Décadas depois, em outro contexto, Toni Souza também encontrou no rádio uma vocação que nasceu do acaso e se tornou destino. Em 1997, desempregado, aceitou o convite de amigos para integrar um programa esportivo na antiga Rádio Cetama, em Barbalha. “O cupido do rádio me flechou”, brinca ele. Desde então, sua voz ecoa nas ondas do Portal Miséria e da Rádio Progresso, emissora com raízes políticas e culturais profundas na história do Cariri.
Toni Souza

Eu acho que as direções de rádio, especialmente as direções de programação, que são os responsáveis por contratação e por avaliação do potencial de cada profissional, precisa voltar-se mais pra essa galera que tá saindo da universidade, porque é um desafio danado”


Você quer ser jornalista? Então, pronto. Saiba que é uma carreira bonita, linda, que você pode ajudar as pessoas, mas também pode prejudicar muita gente, se você não trabalhar da forma correta ou for responsável.

Assista as entrevistas completas:

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